segunda-feira, 20 de abril de 2009

FELA KUTI

Fela Kuti: afro-beat é compromisso

por Ramiro Zwetsch

Quem teve a sorte de assistir ao vivo, pirou. Foi o caso de Bootsy Colins - lendário baixista do funk, que acompanhou tanto James Brown quanto os grupos Parliament e Funkadelic (ambos liderados pelo lunático George Clinton). "Fela apareceu e quebrou tudo. Eu nunca tinha assistido ou sentido nada igual. Foi incrível e eu acho que tudo aquilo se tornou uma parte de mim."

Bootsy fala sobre o músico nigeriano Fela Anikulapo Ransome Kuti que, como bem descreveu, costumava causar estrago pelos palcos por onde passava. O próprio James Brown também ficou impressionado quando o viu tocar (provavelmente, em alguma data perdida na década de 70). "Quando estivemos em Lagos, visitamos o clube de Fela Ransome Kuti, o Afro-Spot. A banda dele tinha um ritmo forte. Acho que Clyde absorveu um pouco daquele som no seu jeito de tocar ", escreveu em sua autobiografia, referindo-se a Clyde Stubblefield, um dos bateristas que tocou por mais tempo com Brown.

As lembranças dos dois músicos (ambos figuras essenciais na concepção do funk norte-americano) ilustram uma das mais saudáveis trocas de referências que já brindaram a música - já que o próprio Fela Kuti não escondia a influência que o soul de James Brown exercera na sonoridade de sua primeira banda, The Koola Lobitos (formada em 1961 e rebatizada, oito anos depois, para Nigeria 70).

O batera Tony Allen, fiel escudeiro de Fela, também guarda recordações do encontro com os JB's. "Eles foram ao nosso concerto e o diretor musical de James Brown sentou-se bem ao meu lado. Enquanto ele observava e tentava imitar o movimento dos meus pés, a mim restava somente cair na gargalhada", disse em uma entrevista à revista Wire.


Garanhão nigeriano
Naquela altura, Fela já tinha iniciado uma trajetória sem precedentes na música. Tornou-se, no mínimo, o artista mais importante da Nigéria. Espremeu o funk e o jazz, adicionou tempero africano e garantiu o sabor do caldo com o seu próprio talento e a extrema competência dos músicos que formaram suas big bands. Inventou o afro-beat. Gravou mais de 80 discos em 30 anos. Deu visibilidade para Tony Allen, um dos mais criativos bateristas em atividade. Desafiou o governo. Decidiu, em 1974, que sua residência seria um estado independente e lhe deu o nome de república Kalakuta. Depois de meter a boca nas autoridades em um show de 77, viu sua mãe morrer durante uma invasão policial à sua casa - a senhora Olufunmilayo Ransome-kuti, então com 77 anos, foi arremessada pelos invasores do primeiro andar de Kalakuta. Se não bastasse, Fela ainda ficou 27 dias no xadrez. Em 1978, casou em uma mesma cerimônia com 27 mulheres (muitas delas dançarinas e cantoras de sua banda) e batizou todas com seu sobrenome: Anikulapo-Kuti. Se candidatou, em 1979, à presidência da república da Nigéria. Candidatura rejeitada. Foi preso de novo. Dessa vez, em 1984, amargou 20 meses de reclusão. Morreu de Aids em 1997.


Batidas sem fronteiras
Paralelamente a tudo isso, Fela construiu uma obra absurda. Destacar um só álbum é até leviano - e a leviandade, aqui, chama-se "Beasts Of No Nation". Gravado em 1989, o disco guarda importância simbólica justamente por surgir em um período distante da fase áurea da carreira do músico. Foi na década de 70, com a retaguarda da banda Africa 70 (formação com pequenas variações em relação à Nigeria 70), que o músico disparou a maioria esmagadora de seus clássicos: "Lady" (72), "Colonial Mentality" (77), "Shuffering & Shmiling" (78), "Zombie" (76), "No Agreement" (78) são alguns exemplos.

Nenhuma delas se parece, no entanto, com a faixa-título de "Beasts Of No Nation". Especialista na construção do grooves sólidos e duradouros, Fela gostava de sustentar a introdução instrumental por 10 ou 15 minutos - inserindo a voz somente do meio para o final das músicas. Para isso, contava sempre com a levada sincopada de Tony Allen, linhas de baixo pulsantes e pontuação agressiva dos metais.

"Beasts Of No Nation" (12:42 de duração) traz a voz de Fela já nos primeiros segundos e o elemento que demora a aparecer, aqui, são os sopros. Com harmonização dos teclados em evidência, o grupo Egypt 80 (um conglomerado de 30 músicos, alguns remanescentes das bandas Nigeria 70 e Afrika 70) conseguem submeter a herança do afro-beat dos anos 70 para uma sutil variação - que se percebe também, na intervenção das seis vozes de apoio e no timbre do cantor, mais suave em alguns momentos.

Suavidade que vocifera alguns dos versos mais ácidos do nigeriano. Já na capa do álbum, o músico já indica para quem é o recado: a ilustração mostra lideranças do período (o presidente norte-americano Ronald Reagan, a primeira-ministra da Inglaterra Margaret Thatcher e o presidente da África do Sul, P.W. Botha) caricaturizadas como vampiros, com sangue saindo por suas bocas. A contemplação da capa desperta a curiosidade - tão óbvia quanto inevitável - de tentar adivinhar qual seria o tom da crítica do músico aos líderes de hoje, se ele estivesse vivo. Como reforço à imagem estampada na embalagem do disco, ele dá nome às bestas na letra em uma espécie de despedida de um dos discursos mais politizados da música - já que, oito anos depois, Fela seria derrubado pelo HIV.

Do outro lado do vinil, 'Just Like That' (22:54) remete ao período mais fértil do afro-beat e recupera a intensidade dos metais. O sax de Fela dispara em solos e só descansa quando o músico resolve cantar.


Hip Hop, Fellas
A química rara de groove com engajamento chamou atenção de algumas das figuras mais inventivas do hip hop atual. "Eu respeito o esforço de Fela em tentar promover uma mudança positiva por intermédio de sua música. Seu som é um dos melhores que eu já ouvi", disse certa vez, por exemplo, Adam Youch dos Beastie Boys.

Uma boa amostra da afinidade do hip hop com a música do nigeriano está no disco "Red Hot & Riot" ( http://contest.mcarecords.com/redhotriot/jukebox/), da organização Red Hot -- que reúne alguns dos artistas mais instigantes do movimento executando versões para músicas de Fela. Uma das melhores faixas do álbum, "Kalakuta Show", por exemplo, reúne Mixmaster Mike (Beastie Boys), Lateef (Latrix) e Gift of Gab, do Blackalicious -- grupo que buscou em "Colonial Mentalaty", o sample para uma de suas melhores músicas:, "Smithozian Institute of the Rhyme", do disco "Nia" (2000). O duelo inspirado entre dois dos rimadores mais criativos do rap atual ganha ressonância com a hipnose instrumental do afro-beat.

A outra faixa fundamental do disco promove o encontro dos rappers Talib Kweli e Dead Prez com o brazuca Jorge Ben Jor e o grupo Positive Force (conglomerado de ex-integrantes das bandas de Fela). A versão para 'Shuffering & Shmiling" surprende em vários aspectos. Primeiro, deve-se dar o braço a torcer ao produtor da faixa - que conseguiu extrair de Ben Jor o mesmo falsete dos tempos em que se chamava só Ben (êxito só comparável à participação do mesmo Jorge na música "Malungo", da Nação Zumbi pós-Chico Science). No mais, a fusão bem dosada de rap, metais felakutianos e guitarra benjoriana explode nos ouvidos como massagem sonora.

"Red Hot & Riot" vale, no mínimo, por essas duas músicas e serve de petisco para o banquete que a vasta discografia de Fela Kuti oferece. Aos durangos, resta uma boa pesquisa no Kasaa ou genéricos. Quem quiser os discos, em CD ou vinil, terá que desembolsar o desgostoso preço da importação - mas, pode ter certeza, o deleite vale o investimento.

Links relacionados:
http://www.redhotriot.com/
http://www.felaproject.net/
http://www.ghotek.com/fela/

Afrobeat

Afrobeat é uma combinação de música yorubá, jazz, Highlife, funk e ritmos, fundido com percussão africana e estilos vocais, popularizado na África na década de 1970.
O principal criador do Afrobeat e artista nigeriano exclusivo de longa data foi o multi-instrumentista e líder de banda Fela Kuti, que cunhou o termo Afrobeat, moldado a estrutura musical, e também o contexto político do gênero na Nigéria.
Nigerianos foram os primeiros a introduzir a Afrobeat em 1970, quando Kuti de regresso de uma turnê aos E.U. com seu grupo "Nigéria 70" (ex-Koola Lobitos). O novo som de Kuti arrastou-o de um clube que ele construiu chamado afro-Santuário. Ao chegar na Nigéria, Kuti mudou o nome do seu grupo para Fela Ransome-Kuti & África 70. A banda manteve-se por um período de cinco anos de residência no Afro-Santuário de 1970-75, enquanto Afrobeat prosperou entre os jovens nigerianos.
As características do Afrobeat são:
Big Bands: Um grande grupo de músicos tocando vários instrumentos;
Energia: energética, empolgante e com alta velocidade, percussão Polirrítmica;
Repetição: Os mesmos movimentos musicais são repetidos várias vezes;
improvisação: Apresentação sem conjunto musical;
Combinação de gêneros: Uma mistura de diversas influências musicais.
Vocais tendem a ser cantadas em Yorubá e pidgin inglês como Kuti, que disse em perfeito Inglês, considerar estas como sendo as mais entendidas em todas as línguas das fronteiras da África.


Afrobeat originou-se na parte sul da Nigéria nos anos 60 quando Kuti experimentou com muitas formas diferentes de música contemporânea da época. Predominantes na sua música são harmonias e ritmos nativos Africanos, tendo diversos elementos e combinando, modernização e improvisando sobre eles. Políticas são essenciais para o gênero de Afrobeat, desde o fundador Kuti a crítica social é utilizada para preparar o caminho para a mudança social.
Sua mensagem pode ser descrita como relativa a confronto e controvérsia, que pode ser relacionada com o clima político da maior parte dos países da África nos anos 60, muitos dos quais foram lidar com a injustiça política e corrupção militar ao mesmo tempo recuperando pela transição de governos coloniais à autodeterminação. Com o gênero espalhado por todo o continente africano muitas bandas assumiram o estilo. As gravações destas bandas e suas músicas raramente eram ouvidas ou exportadas para o exterior mas em muitos países de origem já podem ser encontradas na compilação álbuns e CDs gravados de lojas especializadas.
[editar]Influência
Muitos musicos de jazz têm sido atraídos para o Afrobeat. Desde de Roy Ayers nos anos setenta a Randy Weston nos anos noventa, houve colaborações que resultaram em álbuns como África: Centre of the World por Roy Ayers, realizado pela etiqueta Polydor em 1981. Em 1994 Branford Marsalis, o saxofonista de jazz americano, incluiu amostras de Fela "Beast of No Nation" no seu álbumBuckshot leFonque.
Afrobeat foi profundamente influenciada por importantes produtores contemporâneos como Brian Eno, que creditaram Fela Kuti como uma influência. Os metais do Antibalas são músicos convidados nos álbuns Foals, Antídotes.
A nova geração de DJs do anos 2000 que se apaixonaram tanto pelo material de Kuti e outros raros lançamentos, fizeram compilações e remixes dessas gravações e assim, reintroduzir o gênero para novas gerações de ouvintes e fãs do Afropop e Groove.








quarta-feira, 15 de abril de 2009

Entendendo o Twitter

Música e Twitter: uma combinação perfeita

Por :MIGUEL CAETANO

Fonte: http://remixtures.com/2009/02/msica-e-twitter-uma-combinao-perfeita/

Mesmo não tendo sido dos primeiro da blogosfera portuguesa a chegar aoTwitter - só estou lá pouco mais de um ano -, já deu para constatar que a plataforma de microblogging tem crescido a todo o vapor ao longo dos últimos três meses. Se em Portugal apenas os bloggers começaram a tweetar em massa, nos Estados Unidos o Twitter corre mesmo o risco de se massificar.

No início da semana a empresa de análise do tráfego da Web Compete revelou que o Twitter ocupa actualmente a terceira posição na sua lista de redes sociais mais populares entre os norte-americanos, de acordo com dados de Janeiro deste ano. Embora continue ainda muito afastado do Facebook e do MySpace, o que é facto é que na lista anterior o Twitter encontrava-se apenas na 22ª posição. Hoje mesmo, o Pew internet & American Life Project anunciou que em Dezembro de 2008 11 por cento dos internautas norte-americanos adultos afirmaram usar o Twitter ou outra plataforma de microblogging.

Tudo isto para dizer que o Twitter está-se a arriscar a deixar de ser apenas uma mera moda entre um grupo de geeks e nerds com interesses esotéricos e obcecados por tecnologia para transformar-se numa fenomenal ferramenta demarketing e promoção de micro-marcas ideal para quem pretenda se aproximar de pequenos nichos. Por outras palavras, o Twitter pode ser extremamente útil para um artista ou uma banda que pretenda dialogar directamente com os seus fãs e tirar partido da Web social. Do mesmo modo, os fãs podem também ficar a par de pequenos momentos da vida privada dos seus ídolos ou do processo de composição, gravação e produção de um álbum ou ainda escutar músicas novas em primeira mão.

Ferramentas e apllcações para músicos e fãs tirarem partido do Twitter

Quem passa algum tempo no Twitter apercebe-se realmente do que é possível fazer com apenas 140 caracteres. As possibilidades são inúmeras: desde escutar uma música por intermédio do playTwitter ou obter recomendações de novas bandas semelhantes aos nossos artistas favoritos graças ao recomme até partilhar um ficheiro através do Twittershare ou uma foto via TwitPC. Quem for utilizador do Last.fm, pode até dar a conhecer os seus followers as músicas que marcaram como favoritas na rede social. O LastFM love/twitter de Peter Weitzman permite exactamente isso.

Recentemente, começaram também a surgir serviços que faclitam a partilha de ficheiros MP3 ao reduzirem o tamanho dos endereços URL do link para uma música. Tal e qual como o TinyURL ou o is.gd só que especializados em música. De certa forma, assemelham-se ao Blip.fm, embora este último seja de facto uma plataforma de microblogging concorrente do Twitter:

  • TinySong - este site funciona como um motor de pesquisa de de MP3s associado ao GrooveShark Lite. O URL gerado pelo serviço quando queremos partilhar uma música encaminha os nossos amigos para o seu siteque por sua vez o reencaminha-o para o site que contém o verdadeiro endereço que nós queremos passar.
  • Songly - possui o mesmo esquema de funcionamento utilizado pelo Songly com a vantagem adicional de disponibilizar uma extensão para o navegador Firefox. Graças a este plug-in, sempre que quisermos partilhar um MP3 basta clicar em cima dele com o botão direito do rato e clicar uma segunda vez por cima do menu contextual. Nos planos dos programadores do projecto está também a possibilidade de publicar automaticamente no Twitter uma canção disponível a partir do Deezer.
  • Twiturm - Bastante parecido com o anterior com a diferença de alojar os ficheiros em servidores próprios. Ao indicarmos o nosso nome de utilizador e palavra-passe temos acesso a uma página de perfil a partir da qual podemos fazer uploads de MP3s. A partir daqui, podemos ouvir a música através do leitor do site ou publicá-la para o Twitter. Também podemos ainda autorizar ou não os nossos followers a fazer o download desse tema. Por fim, podemos ainda usar o Twiturm como serviço de alojamento e partilha de músicas. Convém no entanto não abusar muito uma vez que o seu criador avisa que o serviço apenas deve ser utilizado para guardar, partilhar e twettar músicas criadas por nós e não títulos protegidos por direitos de autor.
  • Tra.kz - o mais recente dos serviços que encurtam URLs. O Tra.kz foi concebido pela equipa de programadores responsável pela comunidade online de remisturas MixMatchMusic e incorpora um leitor de música em flah bastante simples, possibilitando ainda o retweet da música e a respectiva partilha em várias redes sociais. O grande inconveniente é que as bandas têm que alojar as músicas num espaço próprio. Em contrapartida, oferece a possibilidade de descarregar o ficheiro para o nosso disco rígido.

Músicos e bandas que já estão no Twitter


MusicTwitters A chegada de músicos ao Twitter começou quase despercebida mas a verdade é que actualmente o seu número já é bastante elevado. Há medida que o Twitter começou a atingir ritmos de crescimento estratosféricos começaram a chegar nomes de “pesos pesados” do mundo da música como Coldplay, Muse, Bjork,Oasis ou REM. Isto sem falar na própria Britney Spears que trouxe consigomilhares de novos utilizadores ao Twitter.

É claro que nem todos são escritos pelos próprios músicos. Algumas excepções são os Sonic Youth, Kristin Hersh (ex-Throwing Muses e actual responsável pelo projecto CASH Music), MC Hammer, Mike Skinner dos The Streets, o DJ Diplo,Dave Allen dos Gang of Four ou Edward Roste dos Grizzly Bear. Outros não passam de contas falsas criadas por mandriões (Nick Cave e Brian Eno). Uma dúvida que continua a subsistir é se o Trent Reznor que anda por lá é o verdadeiro líder dos Nine Inch Nails ou se se trata de mais um aldrabão. E é claro, temos também o “nosso” David Fonseca que em quinze dias já conseguiu 1500 followers, o que correspondeu a uma entrada directa para o Top 15 dos mais populares do TwitterPortugal.

De modo a que os utilizadores do Twitter acompanhassem a par passo as novas entradas de músicos e bandas na plataforma de microblogging o analista de negócios canadiano Gabriel Nijmeh criou uma folha de cálculo no Google Docsque qualquer pessoa adiciona novos nomes. Neste momento, podemos ali encontrar 728 nomes abrangendo os mais variados estilos musicais desde o Hip-Hop ao Country passando pelo Indie, alternativo, Folk, Jazz, Punk e electrónica.

Outro recurso interessante sobre músicos, editoras, blogs de MP3 e sites de música no Twitter a pensar nos fãs é o MusicTwitters, um site desenvolvido pela publicação de música independente DrownedInSound que, como é lógico, também se encontra no Twitter. Para saberem quais os músicos que vale ou não a pena seguir podem ler este artigo da DiS e este da Pitchfork Media.

Se são músicos ou responsáveis por uma editora discográfica e pretendem começar a twettar recomendo a leitura deste e deste artigo que explicam como e com que periodicidade o devem fazer e o que devem dizer. Depois de entrarem vão ver que vale mesmo a pena estar no Twitter. Tanto mais que não seja pela possibilidade facto de comunicarem directamente com os fãs e obteremfeedback em tempo real da sua parte. Então do que é que estão à espera?

(foto de arcticpenguin segundo licença CC-BY-NC 2.O)

sábado, 11 de abril de 2009

O ATAQUE DOS DJs ERRADOS

Fonte: http://www.portalelectromag.com.br

Quantas vezes você já não leu a seguinte frase: "(inserir nome de celebridade qualquer) ATACA DE DJ". A cada ano que passa, para mim pelo menos, fica mais difícil contabilizar. Uma rápida pesquisa de noticiário revelou que Giovanna Antonelli, André Marques, Adriane Galisteu, Luana Piovani, Bruno Gagliasso, Ronaldo Esper, Lucio Mauro Filho, Grazi Massafera e Giselle do BBB e Marisa Orth... todos "atacaram" de DJ nas últimas semanas.


Pois é, no começo achava estranho o uso desse verbo. "Ataca"! Atacar! Um ataque de DJ, como assim? Depois de um tempo, entendi a escolha. E achei mais do que apropriada. Quando uma figura dessas, que mal sabe localizar o "play", entra no som, é hora de procurar abrigo e se jogar no chão porque vai começar um ataque impiedoso aos ouvidos, ao bom gosto e à paciência dos ouvidos mais apurados.

A realidade não é tão bacana. Quem usa o "ataca" não está pensando, é claro, nesse ângulo negativo. Quando dizem que fulano "ataca" é mais num sentido "Uau!", "U-hu", um uso do verbo num clima de pura irreverência, empolgação e malandragem.

Já reparou que ninguém "ataca" de chef de cozinha ou de ator? Ou de VJ da MTV ou de editor de revista ou jornal. Estes são "convidados", fazem aquilo "por um dia", realizam uma "participação especial", "dão uma canja" ou ainda "dão uma de".

Existe uma percepção em muitos cantos do universo de que qualquer um pode subir lá e tacar umas músicas - sem falar que ser DJ é uma das atividades mais desejáveis da atualidade, principalmente a parte onde você é o centro das atenções da festa (estamos falando de "celebs", afinal...). A regra, então, é esquecer da humildade na hora de pagar de DJ. Por isso, ninguém "dá uma de DJ" nem faz uma "participação especial". Nego vai logo lá e ATACA!

Mas então, dá pra fazer algo a respeito, além de bufar nos fóruns online da vida? Sinceramente, não dá não. A mania por celebridade impregnou nossa cultura popular de tal maneira que é melhor se conformar com a farsa.

Minha sugestão: se não pode com eles... ria deles! É o que tenho feito aqui no meu trabalho com o pessoal cada vez que sabemos de mais um desses "ataques" devastadores.

Sei que tem nego pegando em armas cada vez que sabe que mais um global chegou perto de um CDJ. Também sei que uma das bandeiras dos movimentos pela profissionalização do DJ é justamente barrar a presença desses "amadores" nas cabines. Mas, por mais que a informação de que um ator de "Malhação" está prestes a soltar sua primeira música me mandasse direto para o bar, não consigo ser tão ranzinza assim.

Eu acho até que, a longo prazo, isso pode ser benéfico para os DJs de verdade.

Imagine um line-up assim: Bruno Gagliasso e depois Zegon. Ou senão Diego Alemão e depois Mau Mau. A ruindade da celebridade no som valorizaria ainda mais o bom profissional que entrasse na sequência. Seria como comparar água suja e uísque 18 anos. Numa situação de contraste tão brutal, muita gente finalmente teria um estalo e perceberia então do que é feito um bom DJ.



CAMILO ROCHA

é DJ, jornalista e colunista fixo da Electro M.A.G., com a seção "Música e Delírio".



sexta-feira, 10 de abril de 2009

Jungle

Fonte: http://www.submusica.com/

As raízes do Jungle

jamaican.jpg

Pai do Drum and Bass, o Jungle surgiu no início dos anos 90, final de 1992 e início de 1993, nas comunidades afro-caribenhas inglesas como uma evolução do Ragga-Jungle que havia aglutinado elementos do Breakbeat Hardcore, Ragga, Reggae, Hip-Hop, Dancehall, Toasting e da cultura Yardie em sua estrutura.

O nome Jungle nasceu na Jamaica e era um termo que servia para identificar pessoas que faziam parte de duas regiões diferentes de Kingston: A “The concrete Jungle”, área urbana, e a “The Jungle ou The Gardens”, área florida e arborizada da ilha.

No entanto, o termo começou a ser mais utilizado para designar locais perigosos e violentos, onde a vida não era nada fácil e cuja única lei era a lei da selva, ou seja, as favelas urbanas de Kingston. Apesar de antagônico, o termo realmente é derivado da “The Concrete Jungle” e não do “The Jungle”, o que pareceria mais lógico.

Após a segunda guerra mundial, especificamente nos anos 50/60, o Reino Unido passou a adotar leis estimulando a imigração com objetivo de obter mão-de-obra, principalmente de suas ex-colônicas, como Jamaica e India .

Tal medida favoreceu para que um grande contigente de pessoas fossem para o UK atrás de melhores condições do que a verificada em seus países de origem. Mas foi somente nos anos 70 que se deu uma grande migração de jovens jamaicanos para a Inglaterra devido, principalmente, a uma grave crise social e econômica que se abateu sobre a ilha.

As comunidades afro-caribenhas, situadas em sua maior parte no entorno das principais cidades inglesas, também trouxeram na bagagem a sua cultura e sua música, e são esses dois aspectos os grandes pilares para o entendimento da música jamaicana , e o que se desdobrou a partir dela, na Inglaterra: O Rastafari e o Toasting.

Rastafari é um movimento religioso que prega o retorno dos negros � terra natal de seus antepassados, a �?frica. Surgiu na Jamaica entre a classe trabalhadora e camponeses negros em meados dos anos 30, iniciado por uma interpretação da profecia bíblica em parte baseada pelo status de Selassie como o único monarca Africano de um país totalmente independente e seus títulos de Rei dos Reis, Senhor dos Senhores e o conquistador do Leão de Judá, que foram dados pela Igreja Ortodoxa etíope, que existe há muito tempo e não tem relação com a Católica. O movimento Rastafari se espalhou muito pelo mundo, principalmente por causa da imigração e do interesse gerado pelo Reggae, mais notavelmente por Bob Marley.


Video que dá uma breve introdução sobre o Rastafari

O Toasting consiste em rimar, sempre no ritmo da batida, sobre uma versão instrumental de uma música Dub . Ele surgiu na década de 60 quando surgiram os primeiros Sound Systems, que eram colocados nas ruas dos guetos jamaicanos para animar bailes. Esses bailes serviam de fundo para o discurso dos Toasters, autênticos mestres de cerimônia que comentavam, nas suas intervenções, assuntos como a violência das favelas de Kingston e a situação política da Ilha, sem deixar de falar, é claro, de temas mais prosaicos, como sexo e drogas.


Performance de um dos grandes Toaster, o mestre Horacy Andy

A cultura Toasting e o Reggae foram os principais responsáveis pela criação de uma identidade musical e cultural nessas comunidades. Os subúrbios, onde grande parte dessas comunidades viviam, também ficaram conhecidos como Jungle, como o era em Kingston, em alusão a gueto, pereferia. Não só o lugar, mas toda aquele estilo de música, com fortes traços jamaicanos, ficou conhecido como Jungle. Há uma controvérsia e alguns afirmam que Jungle tinha um cunho racista, algo como Niggaz ou negros do subúrbio, mas não nenhum registro de algum artista que tenha se pronunciado a esse respeito.

Embora o Jungle tenha sido originalmente criado e dissipado entre as comunidades afro-caribenhas inglesas, ele se beneficiou de influências e de outros grupos raciais como a dos indianos, movimentos culturais (como o da cultura Ecstasy, predominante nas Raves no final da década de 80) e musicais como o House e o Hip-Hop.


Vocais Ragga, levada Dancehall e beats quebrados: O Proto-Jungle de Rebel MC

Mas foi somente o britânico Michael West aka Rebel MC que conseguiu introduzir e dar forma a uma textura musical que misturava Ragga, Reggae, Dancehall, Hip-Hop, Breakbeat Hardcore, House e “postura” Yardie em suas músicas. Nascia o Ragga-Jungle, um estilo que continha todos os ingredientes para o que viria ser o Jungle, como o conhecemos hoje: o “tom” gangsta dos Rude Boys, o tema “gueto”, linhas de baixo “gordos” do Dub, beats acelerados do Hip-Hop, vocais rasgadões Ragga, noises do Techno, levada do Dancehall e “unity” do Reggae.

Não é para menos que Rebel MC é um dos nomes mais importantes de todos os tempos dentro do Hip-Hop, Jungle e Ragga-Jungle britânico, responsável por ser um dos pioneros na introdução de elementos da música jamaicana na música eletrônica e um dos mais inovadores dentro da cena Jungle/Drum and Bass. É dele o primeiro uso musical documentado do termo Jungle com o seguinte trecho: Rebel got this chant -”alla the junglists”.

rebel-mc.jpg
Rebel MC, o pai de todos nós Junglists

Por volta de 1992/1993/1994, o Jungle começa a se tornar popular dentro e fora do UK, sobretudo devido aos clubs de londres. No entanto, alguns produtores envolvidos com a cena começaram a se desvincular da sonoridade e da estrutura estilizada de produção “ragga-gangsta-breaks-violentos”, passando a incorporar novos elementos e ritmos de outros gêneros como Jazz, Cool Jazz, Soul e Techno Hardcore. O boom das novas ferramentas de produção musical, sobretudo os softwares de “computer music�?, permitiram colocar a música e os experimentalismos numa escala nunca antes vista, o que favoreceu, e muito, novas sonoridades dentro do Jungle.


UK Apachi & Shy Fx / Original Nuttah - Clássico absoluto do Ragga-Jungle

Esse movimento foi rotulado pela imprensa de Jungle Intelligence, sendo LTJ Bukem um dos percurssores e o selo Good Looking Records como um dos mais representantes na época. Em um primeiro momento, o Jungle Intelligence manteve as mesmas texturas do beats percurssivos e sincopados do Jungle, mas com um enfoque numa estrutura ritmica mais atmosférica, com basslines mais profundos, sobre vocais e samples de Jazz e Soul. Os pioneiros desse novo estilo foram LTJ Bukem, Fabio, Grooverider, Andy C, Roni Size, DJ SS, Brockie, Mickey Finn, Kenny Ken, Goldie, etc, que lançaram, na verdade, as bases do Drum and Bass.

A partir daí, o Jungle de raíz ficou mais restrito a um pequena cultura de músicos e produtores que se esforçaram em manter a mesma estrutura e com a mesma vibe. Ele vive até hoje e se tornou um estilo de vida para muitos que mantém o espírito do “Rastafari Urbano”, com diria Rebel MC.

Alla the Junglists, Jah Rasta Fari!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tutorial do Audacity para leitura e Impressão

Software Livre para produção de aúdio e podcast


domingo, 5 de abril de 2009

Série Artigos - Cultura DJ

O entorno da cultura do dj*

Fonte:http://www.pragatecno.com.br



A socióloga e mestre em Sociologia, Adriana Prates, e o jornalista e mestre em Cibercultura, Cláudio Manoel (aka dj Angelis Sanctus) são djs. Eles entrevistam a si próprios sobre as questões da cultura do dj. Morando em Salvador, onde são pesquisadores e professores universitários, atuam no coletivo Pragatecno, que desde 1998 fixou-se como um projeto cultural no norte e nordeste para disseminar a cultura do dj e a música experimental eletrônica. Confira!



Adriana Prates - Dj é artista?

Cláudio Manoel – Há uma polêmica. Produtores eletrônicos defendem que artista é o que produz arte; e dj reproduziria, apenas. O dj está num meio campo, entre arte e técnica, um artista-técnico, pois seus equipamentos também produzem e manipulam o “pronto”. E a função da arte não é provocar sensações? Isso o dj faz com técnica e seleção musical, ondulando a sensibilidade do público.



Cláudio Manoel - Do underground ao overground?

Adriana Prates - Creio que sim. O termo overground objetiva descrever a chegada de produtos culturais underground ao mercado sem perder, porém, seu caráter artístico alternativo. Como exemplo de overground podemos citar o Punk: de repente, todas as lojas começaram a vender roupas detonadas! Isso vem ocorrendo com a música eletrônica, e, nos últimos tempos, podemos acompanhar sua apropriação pela grande mídia e pelo mercado, acarretando uma conseqüente popularização de estilos relacionados e a ampliação do público consumidor. Essa popularização envolve também, além do overground, a pura massificação, como quando ocorre, por exemplo, a produção em série de faixas baseadas em uma track que atingiu o overground. Como exemplo de overground, em relação à música eletrônica, acho que é possível citar também a realização de festivais como o Nokia Trends e o Tim: grandes eventos que possuem intenção puramente comercial, mas cujo line up é composto por djs e projetos experimentais de música eletrônica. São eventos onde a produção underground é absorvida pelo mercado e pelo grande público sem que os artistas precisem abrir mão de seu ponto de vista estético.



Cláudio Manoel - Antes se falava em tribos da e-music. Mas com essa

massificação, podemos identificar ainda essas tribos do pós-moderno?

Adriana Prates - Essa questão não diz respeito apenas às comunidades de apreciadores da musica eletrônica, visto que, de modo geral, essas aglutinações que compõem o que você está chamando de tribos constituem um fenômeno urbano disseminado, funcionando como referência identitária num ambiente complexo, caracterizado por elementos como a velocidade, a diversidade, a impessoalidade, o anonimato, a falência de valores tradicionais... O que acontece, e talvez por isso você mencione a questão da massificação, é que é praticamente impossível que essas, digamos, tribos, se mantenham no underground, visto que as grandes empresas procuram acompanhar tendências emergentes de comportamento, no sentido de circunscrever novos nichos de mercado. Aliás, não somente para circunscrever, mas também para criar esses nichos e produzir novas demandas de consumo. Esse movimento provoca alguma diluição, pois dissemina os códigos das comunidades alternativas para muito além do grupo original. Por outro lado, os sinais distintivos de tais grupos são constantemente recriados, num processo contínuo. O mesmo acontece quando uma nova tendência musical chega ao mainstream, mas as produções experimentais continuam a existir e a propor novos pontos de vista, que serão, por sua vez, novamente apropriados pelo mercado e assim sucessivamente.



Adriana Prates - Ao menos no Nordeste, a existência de coletivos foi fundamental para a expansão da música eletrônica. Agora que este tipo de música se tornou mainstream, qual seria o papel dos coletivos. E em outros países? Existem coletivos? A finalidade é/foi a mesma? Qual o papel deles para a cena?

Cláudio Manoel – Os coletivos – grupos de pessoas envolvidas com o mesmo projeto cultural – rompe com a idéia de hierarquia. A função do “líder” é diluída frente à produção cooperativa e prazerosa dos integrantes. No nordeste, os coletivos de e-music foram fundamentais para a deflagração da cena, pois significaram uma rede livre para a circulação da informação em uma região “fora” do um circuitão (SP e RJ). A internet foi e é o braço de apoio dos coletivos atuantes, ainda. Naquela época, a função principal dos coletivos era criar a rotina de eventos em torno da música underground para gerar temporalidade (rotina) e localidade (point), bases para a existência de uma cena, entendida como a superprodução exposta de uma comunidade. Foram os coletivos e iniciativas de promoters ligados ao underground que fizeram essa cena ganhar visibilidade midiática. Depois, obviamente, ela foi apropriada comercialmente – destino reservado a qualquer cena under. Lembre-se que, antes, a cultura under da e-music era negada e perseguida pela mídia e algumas instituições e até alguns promoters que hoje a tomam como negócio; hoje é fonte de lucro e geradora de agregações de valores; é mídia. Mas negação à nova música acontece desde os anos 50, com o jazz, rock and roll, reggae, punk. Antes marginais, depois massivos. A partir dos anos 90, coincidentemente com a cena dos djs, no Brasil, a produção simbólica dos grupos “das ruas” chama a atenção dos MCM e de empresas. Ora, se a música experimental é lucro, hoje, os coletivos têm uma de suas principais funções – eleger e publicizar o que é experimental – diluída. A eles, além da função de agenciamento de seus artistas, é dado como tarefa manter eventos rotineiros e conceituais, onde se podem explorar as novas pesquisas sonoras dos djs, dos músicos e as gens dos vjs. Creio também é o desafio, talvez o principal, seja: produzir música (já que a reprodução foi tomada). Produzir é essencial nesse momento, para propor novas experiências estéticas. Outro aspecto: a pouca circulação era um elemento do underground (e por isso ele existia como under e não como over). Sem dó: o underground acabou. A própria circulação é hoje livre, massiva e descontrolada, via internet e novas mídias móveis. Os coletivos não é uma experiência brasileira. Os coletivos é uma experiência global. E engana-se quem pensa que ela pertence à eletrônica. Lembre-se que em 1976, o empresário Dennis Rowe dirigia o Muscle Head (Londres), o mais famoso sound system do Reino Unido nos anos 80. E ele fazia “batalhas” de potências de eventos com outros SSscomo o Third World (NY), Sir Coxsone, Bodyguard, Afrique, King Addies e Kebra Negus. Esse clima de disputa do bem continuou nos primeiros sound systems ingleses de e-music – o que motivava e motiva (pois eles existem ainda) eram diferentes conceitos estéticos, que demarcam territórios de (sub)cultura. No Brasil, essa idéia de coletivo chegou meio pobre dentro da cena eletrônica, onde os grupos não tinham e nem eram, em sua maioria, sound systems. Os coletivos são uma pós-versão dos sound systems. A experiência autêntica brasileira de sound systems são as aparelhagens dos bailes funks iniciais (sim, do funk carioca) e das festas bregas ao norte do país. Eles – os coletivos e as aparelhagens - ajudam na circulação da informação, democratização da música e a incrementação e autonomia das cenas.



Adriana Prates - Qual a relação entre o uso de drogas e a preferência por música eletrônica?

Cláudio Manoel – Não é a música eletrônica. É a juventude. É claro que uma cena que se espalha, espalha junto com ela os seus elementos – moda, gíria, droga, comunidades virtuais... É que a mídia, que sobrevive da notícia, procura, quase sempre, o caminho mais curto para explicar algo complexo e ganhar audiência.



Cláudio Manoel - O dj e o entorno da música eletrônica hoje são produtos de consumo, resultado da indústria cultural, que se instalou como projeto de marketing para empresas. Dj e sua música são mídias - exatamente o contrário de alguns anos atrás. O que é o consumo, quando o tema é o dj?

Adriana Prates - Esta sua questão propicia várias possibilidades de análise... poderíamos falar em consumo no sentido da fruição desta música e dos ambientes onde ela é executada ou do consumo como a aquisição de elementos materiais, como, por exemplo, discos e demais artefatos relacionados à esta música ou à outras preferências concebidas como próprias de seus apreciadores, por exemplo. Mas você mencionou a questão do marketing e isso remete especificamente à forma atual de operação das grandes empresas, através de segmentos de mercado, contando, para auxiliá-la nesta tarefa, com um poderoso aparato publicitário, técnicas de pesquisa, etc. A comunidade eletrônica precisa construir uma postura crítica em relação a essas questões. Em relação a este ponto, lembro de uma discussão ocorrida na lista do Pragatecno, faz algum tempo, a respeito de qual, dentre os festivais de música eletrônica, tinha o perfil “mais comercial”. Na berlinda estavam o Skol Beats, o Sonarsound SP (patrocinado pela Nokia). Algumas pessoas defendiam que o Sonar possuía um perfil “menos comercial”, por ter trazido artistas de Minimal, uma tendência ainda pouco conhecida, naquela época, aqui no Brasil, e que o Skol Beats possuía o caráter “mais comercial”, por trazer artistas de tendências já mais disseminadas. Essa discussão, a meu ver estéril, tornou evidente que as pessoas não conseguiam perceber que no fundo todos esses eventos são a mesma coisa: ações de marketing cuja finalidade não é apenas promover uma marca de celular ou de cerveja, mas que objetivam, especialmente, criar um senso de grupo, de pertencimento, relacionado ao consumo da música eletrônica. Em última instância, estamos diante do mesmo tipo de lógica mercadológica que motiva uma empresa a patrocinar um rodeio ou um torneio de tênis, por exemplo: propiciar um espaço onde se favoreça a constituição de uma relação entre a preferência por um determinado estilo musical, esporte, seja lá o que for, e outras opções de consumo.

*matéria publicada na revista GLOBAL BRASIL no 07 (2007)